Outubro 2009
Para lidar com o erro, a incerteza e a ilusão.
Humberto Mariotti *
Abstract
The purpose of this text is to present some aspects of the importance of the strategic
attitude in most of the areas of human knowledge and activity. Communication and some of
its main characteristic, as well as rationality and rationalization, are mentioned and briefly
discussed. Error, uncertainty and illusion are also discussed, together with the controls
devised by Edgar Morin to deal with them. The concept of ecology of action is also
presented and its three management circuits are described. All of these concepts are
illustrated though examples and minicases.
Resumo
Este texto procura mostrar a importância da atitude estratégica em quase todas
as áreas do conhecimento e da atividade. Trata da comunicação e de algumas de suas
principais características. Aborda as relações entre a razão e as emoções, a
racionalidade e a racionalização. Fala sobre a gestão do erro, da incerteza e da
ilusão e descreve os controles desenvolvidos por Edgar Morin para lidar com essas
variáveis. Por fim, fala sobre o conceito de ecologia da ação e seus três circuitos.
Todos os conceitos são ilustrados por exemplos e minicases.
Introdução
O objetivo deste texto é mostrar, ainda que brevemente, como a estratégia pode se
beneficiar de aportes de muitas áreas diferentes do conhecimento. Em parte ele se baseia
nos trabalhos de Edgar Morin, em muitos dos quais é seguida essa mesma orientação. Em
vários outros pontos, porém, acrescento idéias, comentários e posições pessoais.
O erro e a ilusão são inseparáveis do conhecimento. Todo conhecimento os inclui. O
conhecimento não é um reflexo fiel da realidade, e sim uma “tradução” que dela fazemos
por meio de nossas estruturas de percepção. É o que nos revelam as pesquisas da
neurociência. Não conhecemos a realidade como ela é, mas sim o tanto que nossas
estruturas perceptivas permitem que dela conheçamos.
Em outros termos, cada observador percebe o mundo externo segundo a sua
capacidade cognitiva, isto é, de acordo com o modo como está preparado para percebê-lo.
Por sua vez, o mundo externo também percebe o observador e o faz da maneira como está
estruturado para isso. Por essa razão, a primeira atitude a tomar para reconhecer e – dentro
do possível – atenuar nossos erros e ilusões e dificuldades de comunicação, é questionar
sempre os nossos conhecimentos, o modo como os adquirimos e seus resultados.
Para Morin, se todo conhecimento, por mais “exato” que seja, inclui graus variados de
erro e ilusão, subestimar o erro é o maior dos erros. Na mesma linha, subestimar a ilusão é
a maior das ilusões. Ainda na mesma ordem de idéias, imaginar que as comunicações são
percebidas exatamente como foram emitidas é o maior dos erros de comunicação.
O fato de percebermos o mundo não exatamente como ele é, mas sim como nossas
estruturas de percepção nos permitem percebê-lo, interfere de modo decisivo nas
comunicações humanas. Há muito que os especialistas já se deram conta desse fenômeno. Ele os levou a concluir que o resultado final de uma determinada comunicação não é aquilo
que é emitido pelo comunicador, mas sim o tanto de sua mensagem que chega aos
receptores – e cada receptor o faz segundo a sua própria estrutura, isto é, à sua maneira. A
essa noção importa adicionar o teorema de Shannon: “Uma mensagem enviada por meio de
um canal qualquer sofre interferências no decurso da transmissão, de modo que à sua
chegada parte das informações que ela continha é perdida.”1
Convém, portanto, não esquecer que qualquer comunicação ou mensagem está sujeita a “ruídos” e interferências imprevistas e aleatórias. Além disso, é preciso levar em conta a nossa tendência a nos identificarmos com nossas idéias, teorias, convicções e conhecimentos – com nossas “certezas”, enfim. Identificamo-nos a tal ponto com tais “certezas” que, quando as vemos questionadas, muitas vezes tomamos os questionamentos como ofensas pessoais. Daí decorre um fenômeno muito conhecido: as pessoas que nos são mais próximas, que nos conhecem melhor e portanto mais poderiam nos ajudar, com freqüência evitam questionar-nos, mesmo quando percebem que estamos errados ou iludidos. É óbvio que elas agem assim porque temem magoar-nos e abalar o relacionamento.
Tudo isso junto pode alterar ou deturpar o conteúdo dos conhecimentos e
comunicações, o que com muitas vezes nos leva ao erro e à ilusão. De nossa identificação
com nossas “certezas” participa também a dimensão emocional. Basarab Nicolescu observa
que a efetividade pode prejudicar a afetividade e, é claro, a recíproca é verdadeira.2 Morin
acrescenta que a afetividade pode fortalecer o conhecimento, mas também pode ser-lhe um
estorvo.
A esse propósito lembro um exemplo ocorrido com dois cientistas ilustres, Albert
Einstein e Niels Bohr. Ao longo de muitas discussões sobre seus pontos de vista
discordantes em relação à física quântica, os dois acabaram se afastando um do outro. Para
tentar reaproximá-los, discípulos de ambos organizaram um evento de confraternização. O
resultado foi oposto ao esperado: no local do evento, Einstein e Bohr se mantiveram
separados e, cercados por seus respectivos discípulos, formaram dois grupos
incomunicáveis. Outro exemplo não menos conhecido é o afastamento de Freud e Jung,
causado por divergências em torno de suas respectivas teorias sobre a psique humana.
Ambas as histórias ilustram a frase de Morin que diz que possuímos as idéias e somos
possuídos por elas.
O mesmo Morin, inspirado em Espinosa, também escreveu que nossa capacidade de
ter emoções é indispensável para que assumamos atitudes racionais. Em outras palavras,
para que haja racionalidade é necessária a participação das emoções. A razão que imagina
poder descartar as emoções não produz racionalidade, mas sim racionalismo. É essencial
conhecer a diferença entre a racionalidade e a racionalização. É a racionalidade que nos
permite o controle. A racionalização – que é conseqüência do racionalismo – nos dá apenas
uma ilusão de domínio ao tentar afastar completamente a subjetividade, os sentimentos e as
emoções. Tenta eliminar o humano das ações humanas, ao mesmo tempo em que se propõe
a buscar benefícios para esse mesmo humano.
A racionalidade reconhece que a subjetividade, os sentimentos e as emoções fazem
parte da condição humana e dela não podem ser separadas. Esse reconhecimento implica
aprender a lidar com as emoções, os sentimentos e a subjetividade, e fazer isso de tal
maneira que eles não interfiram de modo perturbador em nossos pensamentos e ações. A
racionalidade reconhece as emoções e sabe da sua importância, mas não se deixa
determinar exclusivamente por elas.
A racionalização é fechada, não aceita o diálogo nem os questionamentos.Tenta
suprimir a afetividade em nome da efetividade. A racionalidade é aberta, aceita o diálogo e
os questionamentos. Busca a efetividade sem descartar a afetividade. Procura usar a
afetividade como fator de inspiração e motivação, não de anestesiamento e alienação.
Como veremos a seguir, a racionalização é um dos mecanismos de defesa do ego.
Para aprender a lidar com o erro e a ilusão é necessário conhecer algo sobre o autoengano. Todos nós temos, em grau maior ou menor, propensão ao auto-engano. Ele pode se manifestar sob a forma de auto-indulgência e autojustificação; por nossa inclinação a esquecer aquilo que nos contraria, desafia ou questiona (esquecimentos seletivos ou de conveniência); por nossa tendência a projetar nos outros aquilo que não queremos ver em nós mesmos (o que nos leva a atribuir grande parte de nossos problemas a causas externas); por tendermos a só ouvir o que queremos ouvir e a só ver o que queremos ver.
Neste último caso – e como no exemplo há pouco citado –, com freqüência as pessoas
que nos são próximas também tendem, pelas mesmas razões já mencionadas, a nos dizer o
que queremos ouvir e a nos mostrar o que queremos ver. Como se sabe, esse procedimento
é amplamente utilizado por áulicos e bajuladores em relação a líderes ou outras pessoas em
posições de poder. Essa é uma das formas pelas quais muitos líderes se deixam manipular.
Para tanto muito contribui, é claro, a vaidade humana. Costumo dizer que ninguém é mais
fácil de manipular do que as pessoas excessivamente vaidosas.
Os mecanismos do auto-engano já foram bem estudados sob a denominação conjunta de mecanismos de defesa do ego. Os psicoterapeutas estão bem familiarizados com eles, em especial depois dos estudos de Anna Freud e Otto Fenichel.3Mas não custa mencionálos aqui: a) a repressão busca afastar da consciência certos aspectos da realidade; b) a negação visa a fugir de determinados fatos ou sentimentos ignorando-os ou distorcendo-os; c) a racionalização procura explicar e recriar a realidade segundo a lógica linear e, por meio dela, criar argumentos de autojustificação; d) a formação reativa tenta redefinir a realidade invertendo-a; e) a projeção tenta atribuir a outros – humanos ou não – nossas emoções, sentimentos e intenções; f) o isolamento pretende fragmentar a realidade para diminuir-lhe o impacto; g) a regressão procura voltar a estágios de desenvolvimento anteriores, supostamente mais simples e menos exigentes.
Hoje, vários autores com freqüência se referem a uma descoberta crucial da neurociência: em nosso cérebro não existe nenhuma estrutura ou função que nos permita fazer a distinção entre alucinação e percepção do real, sonho e realidade, imaginário e concreto. Sabemos que aquilo que é considerado real em uma determinada cultura pode ser visto como imaginário em outra. Do mesmo modo, o que é considerado real e imaginário em uma cultura pode variar de acordo com circunstâncias políticas e/ou históricas dessa cultura. Vejamos dois exemplos.
1. Stalin conseguiu convencer grande parte da população do império soviético de que
era um governante justo e bondoso, sempre preocupado com o bem-estar de seus
governados. A realidade só veio à tona bem depois – em especial após a sua morte –
quando ficou-se sabendo dos milhões de pessoas assassinadas de várias formas
(confinamentos e execuções em campos de concentração, por exemplo) durante o governo
do dito “Grande Pai” da União Soviética. Mesmo assim, stalinistas da Rússia, dos países da
antiga URSS e de muitos outros países continuam agarrados às ilusões do stalinismo e do
marxismo “científico”. É que observa, em outro contexto, o já citado Nicolescu: “Um
simples fato experimental pode arruinar a mais bela teoria científica. Infelizmente, no
mundo dos seres humanos, uma teoria sociológica, econômica ou política continua a existir
apesar de múltiplos fatos que a contradizem.4
2. Nessa mesma ordem de idéias, sabe-se que ainda hoje há quem tente negar o
Holocausto, meio pelo qual o nazismo assassinou milhões de judeus, ciganos e membros de
outras minorias durante a Segunda Guerra Mundial.
Em outro texto5, examinei estudos que mostram que as teorias e ideologias se
organizam em torno de um centro – o “núcleo duro” – e assim formam um “cinto de
proteção” que o protege contra contestações e questionamentos. Quanto mais os
contestadores se aproximam desse centro mais os seguidores do sistema de idéias o
defendem. Para tanto, usam argumentos cuja base é a suposta invulnerabilidade do próprio
núcleo.
Para lidar com o erro, a incerteza e a ilusão, Morin recomenda que usemos a
racionalidade (não confundir com racionalização), e propõe os controles a seguir descritos.
Controle do ambiente. Vários pensadores já assinalaram que o mundo resiste à nossa presença. Não podemos mudá-lo apenas por meio do nosso desejo e de nossa imaginação. Embora o desejo e a imaginação sejam inspiradores, qualquer mudança só ocorre mediante investimentos de energia, recursos adequados e abordagens concretas.
Por isso, o controle do ambiente requer respostas claras às seguintes perguntas: a)
daquilo que é observável, o que pode ser mudado?; b) as mudanças devem ser inicialmente
macro-estruturais (no todo) ou a princípio micro-estruturais (nas partes que o compõem)?;
c) os agentes de mudança têm amplo poder político e econômico para efetuar as mudanças
desejadas?; d) se não têm, que mudanças podem ser feitas com os recursos e o poder
atualmente disponíveis?
Controle da prática. Deriva do anterior, e também da noção de que a seqüência
conceitos
práticas
resultados não é linear como está aqui escrita. Os resultados não
são separados das práticas e dos conceitos. Ao contrário, conceitos, práticas e resultados
interagem entre si em uma relação de circularidade: conceitos
práticas
resultados. Por
isso, o controle da prática requer que a todo momento comparemos o que queremos
(desejos), o que imaginamos (idéias e conceitos) e os resultados efetivamente obtidos.
Controle da mente. Já sabemos que em nosso cérebro não existe nenhuma estrutura ou função que nos permita distinguir com clareza a alucinação da percepção do real, o sonho da realidade e o imaginário do concreto. Quem imagina que essas distinções são possíveis é vítima de uma ilusão denominada “realismo ingênuo”, que por sua vez gera a chamada “sabedoria convencional”. Já tratei desses dois aspectos em outros textos, nos quais o leitor encontrará detalhes.6
O controle da mente deve ser exercido por meio da memória, auxiliada por operações
lógicas. As perguntas a serem formuladas são: a) existem registros históricos confiáveis,
isto é, que resistam a uma análise racional profunda e feita com base em critérios claros e
verificáveis?; b) estamos preparados para pensar de modo a ver as partes em separado sem
perder de vista a noção de conjunto? Ou, inversamente, pensar em termos de conjunto
(pensar global) sem perder de vista as partes isoladas (pensar focal)?; c) estamos
preparados para pensar em termos de curto prazo, quando isso for necessário, e também em
termos de longo prazo, nos casos que isso for preciso?
Esse tipo de preparação exige uma profunda mudança de modelos mentais, o que em
muitos casos pode ser feito por meio de treinamentos especializados.7
Atualmente essa providencia é muito necessária. Eis o que mostrou uma pesquisa
confiável: “Hoje, apesar do rápido crescimento da concorrência, tanto nos mercados
domésticos quanto nos internacionais, e da sempre crescente complexidade das negociações
comerciais em escala global, há uma escassez de líderes globais especializados. (...) Uma
pesquisa realizada entre as 500 maiores empresas da revista Fortune constatou que 85% dos
entrevistados indicaram que suas companhias não tinham um nível suficiente de líderes
globais.”8
Essa mesma pesquisa também apontou as principais características necessárias aos
lideres globais: a) capacidade de inquirir (proatividade e busca de novas experiências); b)
ligação emocional (racionalidade em vez de racionalismo); c) integridade (comportamento
ético); d) capacidade de lidar com a incerteza (as habilidades e competências mencionadas
neste texto); e) conhecimento organizacional e empresarial (pensamento estratégico,
conhecimento das oportunidades de mercado, capacidade de lidar com desafios como diversidade cultural e de idiomas, legislações diversas, contextos geográficos variados,
concepções diferentes de poder e política e assim por diante).
Como se vê, os líderes de hoje precisam de muito mais do que das tradicionais
habilidades e competências técnicas para o bom desempenho de suas funções.
A incerteza pede o auxílio da estratégia. A revelação de que o mundo em que
vivemos é sujeito à aleatoriedade e à imprevisibilidade chegou a nós por meio das
descobertas da microfísica, da termodinâmica, da cosmologia, da teoria da evolução, da
neurociência e das pesquisas dos historiadores. A esse respeito, Morin escreveu: “O
inesperado nos surpreende, mas o novo brota sem parar. Deve-se esperar o inesperado.
Precisamos aprender a navegar num oceano de incertezas entre arquipélagos de certeza”.9
É evidente que a tarefa de lidar com a incerteza, o inesperado e os imprevistos requer
uma atitude estratégica. É ela que permite que modifiquemos nossas ações – e também
nossas expectativas – ao longo do tempo. Morin lembra a frase de Eurípides (circa 480 a.C.
– 406 d.C.), tragediógrafo da Grécia antiga: “O esperado não se cumpre, e ao inesperado
um deus abre caminho”.10 E, seguindo Eurípides, acrescenta: “Deve-se esperar o
inesperado. E, quando o inesperado se manifesta, é preciso que sejamos capazes de rever
nossas teorias e idéias, e não deixar o fato novo entrar a fórceps em uma teoria incapaz de
acolhê-lo”.11
Para ter a capacidade de rever nossas idéias e teorias, é indispensável que sejamos
racionais e não racionalistas. É preciso que sejamos capazes de aprender por adaptação.
Isso implica saber que o aprendizado por adaptação é aquele que muda nossas estruturas de
percepção e, em conseqüência, o nosso comportamento. O que, por sua vez, nos torna mais
adaptáveis às mudanças. Costumo repetir uma antiga sugestão que pode ajudar a abrir as
portas para esse tipo de aprendizado: precisamos prestar sempre muita atenção àquilo que
mais nos desafia, que mais nos questiona, que mais nos incomoda. É um meio útil de
abertura para o novo, de aprender a esperar o inesperado.
Se permitirmos que a racionalização prevaleça sobre a racionalidade não seremos
capazes desse tipo de aprendizado. Em conseqüência, diante das mudanças continuaremos a
adotar os mesmos comportamentos de sempre e, portanto, a repetir os mesmos erros. Ser
adaptativo também significa não esquecer que esperar o inesperado é uma atitude
estratégica. Ela deriva da convicção de que se o futuro é incerto isso não quer dizer que
devemos aguardá-lo passivamente, ou, pior ainda, continuar agarrados aos mesmos modos
de pensar do passado e do presente.
Para lidar com a incerteza são importantes duas disposições: a) buscar informações,
selecioná-las, organizá-las e interligá-las; b) ter presente que as informações, mesmo quando vindas de muitas fontes e estando interligadas, não são suficientes: é preciso que
elas sejam situadas num contexto de espaço e tempo sobre o qual é necessário ter o mais
possível de clareza.
A essas considerações, devemos acrescentar que é essencial agregar às informações
buscadas reunidas, interligadas e contextualizadas nossos conhecimentos sobre as
características fundamentais da condição humana: de um lado, a racionalidade, a mente
lógica; do outro, nossas emoções, e nossa tendência ao erro e à ilusão, que está ligada à
nossa condição de seres contingenciados a conviver com a incerteza.
A ecologia da ação é um conceito resultante da conclusão de que, por todas essas
razões, a postura estratégica é indispensável. Ele foi desenvolvido por Morin e assim pode
ser enunciado: “As ações freqüentemente escapam ao controle de seus autores e produzem
efeitos inesperados e às vezes até opostos aos esperados.”
O conceito de ecologia da ação se refere a fenômenos do dia-a-dia. Baseia-se na
constatação de que de que o curso dos acontecimentos não é linear e, portanto, inclui
inevitavelmente riscos e imprevistos. Seu enunciado e estudo podem a princípio parecer
óbvios e desnecessários, mas a experiência mostra que não é assim. Quando colocado em
contextos específicos, ele revela a sua utilidade.
Morin e Lise Laférière propuseram três princípios para a ecologia da ação:
1. O nível de maior eficácia de uma ação se verifica logo no início de seu
desenvolvimento.
2. Uma ação não depende apenas da intenção ou intenções de seu autor: depende
também depende das condições do ambiente em que se desenrola.
3. A longo prazo, os efeitos de uma determinada ação são imprevisíveis.
Ainda segundo Morin, a ecologia da ação pode ser compreendida em termos de três
circuitos:
1. O circuito risco-precaução. Pode também ser chamado de circuito audáciaprudência.
Antes de qualquer ação é preciso avaliar cuidadosamente os fatores que nos levam a ser audaciosos e os que nos levam a ser prudentes. São grupos de fatores antagônicos, mas nem por isso devemos deixar de considerá-los juntos e em interação. Morin lembra as palavras de Péricles, citado por Tucídides em sua obra A guerra do Peloponeso: “Todos sabemos ao mesmo tempo demonstrar extrema audácia e nada empreender sem madura reflexão”.12
Estamos, portanto, diante de um dos princípios essenciais do pensamento complexo,
que estabelece que em determinados casos é necessária a convivência de opostos simultaneamente antagônicos e complementares. Imaginemos uma balança. No prato da
audácia, colocamos as intenções de ação. No prato da prudência, depositamos as intenções
de reflexão. A tomada de decisões e sua implementação requer que o fiel dessa balança
penda para o lado da audácia. Quanto mais o fiel se afastar do centro na direção da audácia,
mais ousadas serão as decisões e as ações dela decorrentes – e, portanto, maiores os riscos.
O prato da prudência se contrapõe ao da audácia. É ele que avalia os riscos, mas é o lado da
audácia que leva às ações. Do jogo entre a prudência e a audácia emerge o ânimo
estratégico que leva à tomada de decisões e às ações ponderadas.
2. O circuito fins/meios. Como os meios e os fins estão em constante interação, é
quase inevitável que em muitos casos meios condenáveis a serviço de fins meritórios
pervertam estes e acabem por tomar-lhes o lugar. Por outro lado, como acentua Morin, é
possível que ações perversas levem a resultados felizes, justamente pelas reações que
suscitam. Além disso, sabemos que efeitos perversos inesperados podem ser mais intensos
do que os efeitos benéficos esperados. Em muitas regiões do mundo, por exemplo, a
poluição industrial superou os benefícios econômicos da industrialização. Como diz a
sabedoria popular, há casos em que a emenda é pior do que o soneto.
3. O circuito ação/contexto. Já o conhecemos: a partir de um determinado momento e de um dado contexto de espaço, a ação já não mais está sob o controle de seu autor. Nesses momentos e contextos ela cai em um environment, no qual interage com outras ações interações e retroações. Estas podem fazer com que ela se desvie o seu sentido inicial e, como também já sabemos, até mesmo voltar-se contra o seu autor. A esse propósito Morin cita um exemplo histórico bem conhecido: a revolução russa de 1917 provocou não a ditadura do proletariado, como inicialmente se proclamou, mas a ditadura sobre o proletariado.
Dessa forma, quando pensamos em ecologia da ação é de boa estratégia considerar três círculos. O primeiro é o contexto espaço-temporal imediato, no qual o autor da ação ainda exerce controle sobre ela. Podemos chamá-lo de círculo do controle.
O segundo círculo é aquele em que a ação entra no environment já mencionado. Nesse meio ambiente, como já vimos, ela interage com outras ações de múltiplas origens, espécies e orientações. Podemos chamá-lo de círculo das interações.
O terceiro círculo ilustra o terceiro princípio da ecologia da ação: a longo prazo, as
conseqüências de uma ação são imprevisíveis. Podemos chamá-lo de círculo da
imprevisibilidade.
Conclui-se, assim, que quanto mais uma ação se distancia de seu autor mais aumentam o riscos por ela gerados e enfrentados. Na mesma medida, quanto mais ela se afasta do círculo do controle mais diminui a eficácia das providências tomadas para diminuir esses riscos. Esse efeito pode ser atenuado de várias maneiras. Entre elas é importante um maior aporte possível de informações confiáveis.
Vejamos alguns exemplos da ecologia da ação e seus princípios.
1. O exemplo clássico é a história do cavalo de Tróia. Como se sabe, a decisão dos
troianos de trazer para dentro das muralhas a cidade o grande cavalo de madeira deixado
fora dela pelos gregos – e cheio de soldados – resultou na queda da cidade.13
2. No Brasil, vários “planos econômicos” tiveram como objetivo acabar com a inflação
mas fizeram com que ela aumentasse.
3. Muitas vezes a correção dos resultados indesejáveis de uma ação pode ser
negativamente influenciada pelo excesso de otimismo, voluntarismo e onipotência de seu
autor. Essas características podem dificultar – ou mesmo impedir – que ele perceba que sua
ação já se modificou e que essas modificações, por sua vez, estão sujeitas a influências de
numerosas variáveis. Para exemplificá-las, retomemos um exemplo citado há pouco: os
líderes são com freqüência influenciados por seus assessores e por outras pessoas, grupos e
instituições – o que acaba distorcendo algumas de suas percepções, posturas e ações.
4. Outro exemplo é a definição de economia segundo Morin: “É a ciência social
matematicamente mais avançada. E também é a ciência social humanamente mais atrasada,
porque se abstraiu das condições sociais, políticas, psicológicas e ecológicas inseparáveis
das atividades econômicas. É por isso que seus peritos são cada vez mais incapazes de
interpretar as causas e conseqüências das perturbações monetárias e das bolsas e de prever
o curso econômico, mesmo a curto prazo. Assim, o erro econômico tornou-se a primeira
conseqüência da ciência econômica”.14
5. Por fim, lembremos o princípio de Pareto, cujo enunciado é o seguinte: 20% das
ações resultam em 80% dos resultados ou, inversamente, 80% dos resultados decorrem de
20% das ações. Isso quer dizer que a maioria das ações iniciadas com o objetivo de
produzir determinados resultados se perdem e se dissolvem na imprevisibilidade do
ambiente. Se assim não fosse, 100% das ações resultariam em 100% de resultados.
Nas empresas, é corriqueira a observação de que 20% das pessoas são responsáveis por
80% dos problemas. O contrário é verdadeiro: 20% das pessoas são responsáveis pela
solução de 80% dos problemas. Em termos de linha de produtos, é bem conhecida a
constatação de que 20% dos produtos são responsáveis por 80% do faturamento. O mesmo
é válido em muitos outros contextos, como as obras de um escritor, o repertório de um
músico, a programação de uma estação de rádio ou TV e assim por diante.
Tudo visto, é possível chegar às seguintes conclusões: a) conhecer a ecologia da ação
ajuda a tomar decisões; b) uma ação, por mais simples e breve que seja, não deve ser
deixada à sua própria sorte. Dado o fato de que ela cedo ou tarde se verá às voltas com
inúmeros encontros, desencontros, acidentes, imprevistos e muitas outras variáveis,
precisamos estar preparados para corrigi-los ou ao menos atenuá-los.
Para tanto, o autor da ação deve aprender a reconhecer e acompanhar esses fatores e
estar alerta em relação a tudo o que possa interferir nesse reconhecimento e
acompanhamento. Essa é uma posição estratégica. A estratégia ajuda a construir cenários
que podem resultar em novas ações. Essa construção é antecedida pela avaliação das
informações confiáveis disponíveis e do grau de incerteza do contexto e das circunstâncias.
Ao longo do tempo sempre surgem fatos novos, mais informações são conseguidas,
aparecem novas ameaças e oportunidades. Por isso as ações, sua evolução e seus
desdobramentos precisam ser reexaminados e reavaliados a intervalos regulares. Estes,
segundo o caso, podem ser traduzidos em minutos ou segundos, dias, meses e anos.
Vejamos alguns exemplos de como isso pode ser feito:
1. Ao acompanhar segundo a segundo a trajetória dos foguetes que lança, a NASA
pode agir imediatamente se for verificado que um deles saiu da trajetória planejada.
Quando isso acontece – e na impossibilidade de corrigir o curso – os engenheiros abortam o
lançamento por meio de outro foguete, cuja função é destruir o que foi lançado.15
2. Em 1982, nos EUA, o laboratório farmacêutico Johnson & Johnson foi avisado de
que uma quantidade indeterminada de um dos medicamentos de sua fabricação – o Tylenol
em cápsulas – continha cianureto. Na área de Chicago, sete pessoas morreram após a
ingestão dessas cápsulas.
A decisão da empresa foi realizar de imediato um gigantesco recall: em todo o país
foram recolhidos 31 milhões de frascos de Tylenol, no valor de 100 milhões de dólares.
Além disso, a empresa utilizou a mídia para divulgar informações que alertassem o público
sobre o acontecido, o que incluiu a oferta de troca de todos os frascos já comercializados e
a colocação no mercado de embalagens à prova de adulteração.
Todas essas medidas foram realizadas por executivos da empresa em todo o território
dos EUA, sem que houvesse necessidade de interconsultas nem de orientação
centralizada.16 Como se vê, esses executivos fizeram suas intervenções enquanto os
resultados da ação criminosa de adulteração do Tylenol ainda estavam dentro do círculo de
controle.
3. Muitas empresas costumam fazer pré-lançamentos ou lançamentos localizados de
novos produtos e/ou serviços, que podem ser rapidamente descontinuados caso a reação
inicial do público não seja promissora.
4. O mesmo ocorre com lançamentos tentativos de candidaturas políticas. Esses
“balões de ensaio” são igualmente utilizados com muitas outras finalidades e podem ser
imediatamente suprimidos, caso não haja receptividade por parte do público-alvo. O
mesmo é válido para os planos-piloto de várias naturezas.
Sabemos que Morin foi muito influenciado por Pascal. Desse filosofo francês ele tirou
a idéia de aposta. Já falei sobre ela em um ensaio e em um livro17, de modo que no
momento é suficiente lembrar alguns pontos essenciais: a) primeiro refletimos, depois
escolhemos o que fazer e a seguir depois colocamos nossas decisões em prática; b) como
não podemos prever o futuro, as decisões e as ações delas oriundas são, no fundo, apostas;
c) toda aposta se baseia em algum tipo de fé, crença ou expectativa.
No fundo a estratégia é uma aposta, que no entanto não nos autoriza a assumir riscos
de maneira irresponsável e ignorar o que está planejado. Ela deve permear sempre as nossas
programações, por mais detalhadas e fundamentadas que sejam. A estratégia é, por
excelência, uma atitude ligada ao pensamento complexo. Procura aprender com o jogo
entre a prudência e a audácia, que, por meio dela, deixam de ser opostos mutuamente
excludentes e passam a ser opostos ao mesmo tempo antagônicos e complementares.
© Humberto Mariotti.
** HUMBERTO MARIOTTI. Professor da BSP (São Paulo, SP).
Consultor em Desenvolvimento Humano e Organizacional. Coordenador do Grupo de
Estudos de Gestão da Complexidade da BSP. Autor de, entre outros
livros: a) Organizações de aprendizagem: educação continuada e a empresa do futuro. São
Paulo: Atlas, 1999; b) As paixões do ego: complexidade, política e solidariedade. São
Paulo: Palas Athena, 2000; c) Pensamento complexo: suas aplicações à liderança, á
aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atlas, 2007.
E-mail: homariot@uol.com.br
Site: www.humbertomariotti.com
NOTAS
1. CLAUDE E. SHANNON; Warren Weaver. The mathematical theory of communication.
Urbana, Illinois: University of Illinois Press, 1949.
2. BASARAB NICOLESCU. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom,
1999, p. 86-87.
3. Para uma exposição sucinta porém didática dos mecanismos de defesa do ego, ver:
JAMES FADIMAN e ROBERT FRAGER. Teorias da personalidade. São Paulo:
Harbra, 1986, p. 19 e ss.
4. NICOLESCU. O manifesto da transdisciplinaridade, op. cit., p. 25.
5. HUMBERTO MARIOTTI. As paixões do ego: complexidade, política e solidariedade.
São Paulo: Palas Athena, 2000, p. 126.
6. Id., ibid., p. 111. - HUMBERTO MARIOTTI. Pensamento complexo: suas aplicações à liderança, à
aprendizagem e ao desenvolvimento sustentado. São Paulo: Atlas, 2007, p. 12.
7. Para um bom estudo sobre o tema mudança de modos de pensar ver: HOWARD
GARDNER. Mentes que mudam: a arte e a ciência de mudar as nossas idéias e as dos
outros. Porto Alegre: Artmed/Bookman, 2005.
8. JAMES L. GIBSON ; John M. Ivancevich; James H. Donnely, Jr.; Robert Konopaske.
Organizações: comportamento, estrutura e processos. São Paulo : McGraw-Hill, 2006, p.
317.
9. EDGAR MORIN. Les sept savoirs nécessaires à l’éducation du futur. Paris: Seuil, 2000,
p. 14.
10. Id, ibid, p. 14.
11. Id., ibid., 31
12. Id., ibid., p. 97.
13. BARBARA TUCHMAN. The march of folly: from Troy to Vietnam. Londres: Abacus,
1999, p. 42 e ss.
14. MORIN. Les sept savoirs nécessaires à l’éducation du futur, op. cit., p. 43.
15. EDGAR MORIN. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre; Sulina, 2005, p.
81.
16. GIBSON et al. Organizações: comportamento, estrutura e processos, op. cit., p. 353.
17. HUMBERTO MARIOTTI. “A razão do coração e o coração da razão: Blaise Pascal
e o pensamento complexo”. Disponível em www.geocities.com/pluriversu. Pensamento complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao
desenvolvimento sustentado. Op. cit., p. 103.


